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Brasil, belo horizonte, Italia, Brasile,Torino, Turim, antropologia, cultura, dialogo intercultural.

4/02/2005

Sartre

Jean-Paul Sartre, filósofo, escritor e homem livre, exposto às ventanias da história

subtitulo = 'Autor, que completaria 100 anos em junho de 2005, imaginara um grande projeto: "ser ao mesmo tempo Spinoza e Stendhal". Durante toda a vida, de "A Náusea" (1938) até "O Idiota da Família" (1971), ele se dedicou à mais precisa e radical concepção de existência';
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Autor, que completaria 100 anos em junho de 2005, imaginara um grande projeto: "ser ao mesmo tempo Spinoza e Stendhal". Durante toda a vida, de "A Náusea" (1938) até "O Idiota da Família" (1971), ele se dedicou à mais precisa e radical concepção de existênciaMichel ContatEm ParisNa juventude, os seus amigos chamavam-no de "o pequeno homem", talvez porque soubessem que ele estava predestinado à grandeza. Ele próprio não duvidava disso, a partir do momento que esse destino só dependesse dele. Raymond Aron (1905-1983, sociólogo, politólogo, historiador e adversário de Sartre no plano das idéias) conta nas suas memórias que ele admirava a segurança de si do seu jovem camarada. Kant, Hegel? E por que não? Aron contou também que os estudantes da École Normale Supérieure (famoso estabelecimento do ensino superior francês, fundado em 1794), também conhecidos como os "normalianos", daquela geração perguntavam-se quem de Sartre ou de Nizan (Paul Nizan, 1905-1940), os "inseparáveis", se tornaria célebre o primeiro e quem o seria para sempre. Ele mesmo achava que Sartre criaria mais no campo da filosofia e Nizan no da literatura. Sartre conta que ele se considerava como um futuro grande homem, que ele vivia a sua juventude como a do "jovem Sartre", a qual seria detalhada mais tarde pelas biografias. Melhor ainda, ele havia imaginado o seguinte grande projeto: "ser ao mesmo tempo Spinoza e Stendhal" (um filósofo e um autor literário).Quando Simone de Beauvoir (1908-1986, romancista, autora de ensaios e companheira de Sartre) o encontrou pela primeira vez, na primavera de 1929, ela ficou impressionada com esta bela convicção, com o inesgotável jorro de idéias e de teorias que ele produzia, e também, quando ele a fez ler os seus primeiros ensaios, pela sua inabilidade. Uma aventura metafísica acontecera com Sartre: ele havia nascido. Este acidente ocorre com todo mundo, mas, com ele, o nascimento adquiriu uma dimensão verdadeiramente ontológica: ele era pura contingência. Em outras palavras, ele poderia muito bem, achava ele, não ter acontecido. Mais tarde, quando ele interpretou as condições particulares da sua infância, em "As Palavras", ele escreveu: "A minha sorte foi ter pertencido a um morto: um morto havia derramado as poucas gotas de esperma que se transformam ordinariamente numa criança" e ele comemorou tal fato: sendo órfão de pai, era a aquele "morto muito cedo" que ele devia por não ter sido "corroído pelo cancro do poder" e de não ter de conviver com um "super ego".Portanto, ele era mais um, um ser a mais, um excesso, e este caráter extranumerário acabaria lhe dando a intuição de que aquilo era o próprio do homem. Resumindo, ele era desde o nascimento o filósofo da liberdade porque ele havia vivenciado desde a prima infância a nossa condição de seres sem destino outro que os que nós podemos nos dar a nós mesmos. Isso garante a qualquer um, certa dianteira na vida.Ainda assim, é preciso encontrar a forma que conferirá a esta descoberta um valor de verdade universal. Sartre precisou de tempo até alcançar este objetivo. Raymond Aron, contando com as armas do idealismo kantiano, havia demolido uma depois da outra as suas teorias, sem convencê-lo. Ele seguia cavando o seu sulco, obstinadamente, seguro de ter razão uma vez que ele vivia o que ele pensava, enquanto Aron, um jovem elegante, ia jogar nas quadras de tênis. Enquanto o seu camarada Nizan, imbuído do seu engajamento ao lado dos "amaldiçoados da terra" inscritos no PCF (Partido Comunista Francês), dava nos seus romances virulentos o sinal do ataque contra a classe inimiga do gênero humano, a burguesia, Sartre, atrapalhado por um neoclassicismo herdado de Paul Valéry (escritor, 1871-1945), propunha mitos sobre a Lenda da verdade, tentando reconstituir a sua história. Então, seguindo o conselho do "bom Castor", apelido que ele dera à sua companheira, ele se decidiu a dar a forma de um romance à experiência constitutiva de sua pessoa. Modestamente, ele chamou esta empreitada de seu "factum sobre a Contingência" --"factum" sendo um termo pejorativo que significa "escrito polêmico".O "Castor" torceu o nariz quando ela leu uma primeira versão desta obra, escrita no Havre (noroeste da França), onde ele ensinava filosofia: aquilo cheirava demais o professor. Será que ele não podia incluir neste livro um pouco do suspense do qual eles gostavam no cinema e nos romances americanos?Em Berlim, onde ele estivera com o intuito de aprofundar os seus conhecimentos sobre os filósofos alemães Husserl (Edmund Husserl, 1859-1938) e Heidegger (Martin Heidegger, 1889-1976), lendo-os nos seus escritos originais, em 1933-1934, enquanto um certo Adolf Hitler consolidava o seu poder, ele reformulou o factum de cabo a rabo.Mas isso não foi suficiente para que Simone de Beauvoir, que ele descreveria mais tarde como uma das "testemunhas mais severas, que não deixavam passar nada do que ele escrevia", se mostrasse convencida. Ele retomou, portanto, o seu trabalho de aperfeiçoamento do manuscrito, aplainou, poliu, concatenou.No entanto, o manuscrito melhorado, intitulado "Melancholia", não teve a honra de agradar os leitores selecionadores de obras da editora Gallimard. Com isso, Sartre se sentiu negado no seu próprio ser, e, uma vez que uma jovem pessoa bonita que ele cobiçava também o rejeitara, ele mergulhou na depressão, pensou estar sendo perseguido por lagostas e caranguejos, achou estar acometido de uma psicose alucinatória crônica, para a grande irritação da sua companheira, que estimava que ele havia se instalado de maneira complacente na loucura. Ele parou, portanto, de ser louco, e pediu ao seu amigo Charles Dullin para intervir junto ao seu amigo Gaston Gallimard; este aceitou o estranho romance, propôs intitulá-lo "A Náusea", e Sartre consentiu de bom grado a aliviá-lo um pouco dos seus aspectos populistas e obscenos. Todos sabem o que aconteceu então.Sucesso junto à crítica, prêmio Goncourt perdido por pouco, publicação de novelas e de artigos retumbantes na NRF ("Nova Revista Francesa", uma publicação literária editada desde 1907 por Gallimard), dos quais um sobre François Mauriac (1885-1970), que mergulhou este romancista católico num silêncio perplexo.Qual foi a contribuição de Sartre para o mundo literário antes da guerra e, dentre as suas idéias, quais são as que explodirão verdadeiramente depois dela?Uma visão radical da condição humana. Não política, e sim ontológica: o ser humano está entregue à angústia tão logo ele considera a sua existência na sua verdade. Ele é o que ele não é, e não é o que ele é, e esta distância em relação a si mesmo, esta impossibilidade de coincidir consigo mesmo nada mais é que a liberdade da consciência.Husserl chamou esta projeção da consciência em direção às coisas de "intencionalidade". O homem está todo ele voltado para fora, dentro do mundo, exposto à grande ventania do real. Não existe nenhuma interioridade, uma vez que aquilo que nós chamamos de vida interior é uma mistificação, uma vã complacência para com os mitos da pessoa única e delicada. A fenomenologia nos liberta de Proust (Marcel Proust, escritor, 1871-1922) e da psicologia. A imaginação é aquela faculdade de "reduzir ao nada" que é própria à consciência e que lhe confere a liberdade. Esta última em nada constitui um presente, uma vez que, ao contrário, ela envolve a responsabilidade, tanto mais que é impossível fugir dela, exceto mentindo a si mesmo e aos outros por meio da má-fé. Mas ela também permite a grandeza na qual consiste uma vida assumida como liberdade, contra todos os determinismos, inclusive o do subconsciente.Esses temas do existencialismo sartriano ou do existencialismo ateu (por oposição ao existencialismo cristão que encontra a sua fonte no teólogo dinamarquês Kierkegaard, 1813-1855) e que serão formalizados e conceituados em "O Ser e o Nada" (1943), já estão elaborados nos escritos que Sartre publica no decorrer dos anos 1930. A guerra vai lhe servir para aprofundá-los e desenvolvê-los.A guerra é a grande chance da sua vida, podemos dizer, correndo o risco de perpetrar um paradoxo escandaloso. Na Liberação, Sartre começará o seu artigo sobre "A República do Silêncio" com a seguinte frase, que se tornou célebre: "Nunca fomos mais livres do que durante a Ocupação alemã".Livres porque expostos, em meio a uma situação-limite, à verdade da condição humana, e porque confrontados às escolhas as mais extremas. Não faltaram aqueles que lamentaram, sobretudo, desde que ele morreu, que Sartre não tivesse sido fuzilado ou, ao menos, torturado, criticando-o por ter resistido escrevendo, em vez de fazê-lo com armas de verdade. Criticam-no por não ter sido nem Jean Cavaillès, nem René Char (autores que integraram a Resistência contra os nazistas), ou seja, por ter sido Sartre. Por ter escrito "As Moscas" (1943), "Huis Clos" (1944), "O Ser e o Nada" (1943), em vez de ter matado alemães ou detonado ferrovias. Que ele tenha criticado a si mesmo por isso, depois, é compreensível; que outros, e, sobretudo, os que o leram, o tivessem criticado por ter escrito, isso é simplesmente uma farsa. A resistência de Sartre, como escritor e filósofo, é impoluta.As críticas, para os que fazem questão de fazê-las ao seu respeito, se referem à maneira com a qual ele justificou as suas escolhas políticas depois da guerra e ao longo dos anos 50 e 60, e aos argumentos que ele utilizou para tanto.Podemos hoje preferir os objetivos do Movimento Democrático Revolucionário do qual ele participa em 1948-1949 (conferir um conteúdo concreto aos direitos abstratos da democracia por meio da criação de uma Europa socialista e revolucionária). Também podemos condenar sua posição de companheiro de estrada do Partido Comunista de 1952 a 1956 ( ele defendeu o partido porque representa os interesses da classe operária e que ele vem sendo reprimido, defender o bloco soviético em meio à guerra fria por ele estar menos armado do que o bloco atlântico, e por ele ter, portanto, um número maior de razões de querer a paz).Mas essas posições nada mais são do que política e o que importa, para nós, encontra-se em outro lugar."Os Caminhos da Liberdade", esta maneira de submeter a própria liberdade a uma prova por meio da experimentação literária, dentro da linhagem do romance americano e do seu realismo subjetivo. "Saint Genet, Comédien e Martyr" (1952), esta prodigiosa psicanálise existencial de um escritor por um outro escritor. "As Mãos Sujas" (1948), "Le Diable et le Bon Dieu" ("O Diabo e o Bom Deus", 1951), "Les Séquestrés d'Altona" ("Os Seqüestrados de Altona", peça em cinco atos, 1960), com todas as suas indagações apaixonadas sobre o que nós fazemos quando nos tornamos reféns da história. "A Crítica da Razão Dialética" (1960) é um esforço gigantesco para compreender de que maneira a liberdade se transforma em finalidade negativa tão logo que o ato se inscreve dentro do mundo material, e como o grupo se petrifica por meio do juramento de se manter vivo uma vez que as condições do seu surgimento se tornaram obsoletas."As Palavras" ("Les Mots", 1964, análise de sua própria infância, um livro que lhe valeu o prêmio Nobel de literatura, que ele recusou), com esta maneira irônica de se despedir de si mesmo, desmistifica aquilo que o constituiu."O Idiota da Família" (1972) é uma empreitada de antropologia totalizadora na qual o indivíduo Flaubert, com o seu projeto de transportar o mundo inteiro dentro do imaginário, se torna o tema de uma saga da escrita que se desenvolve dentro de um mundo histórico tornado inteligível.Todas essas obras conferem uma visão sobre o homem, na qual os mistérios se dissipam sob os fogos da inteligência mais ágil e vigorosa que o século 20 conheceu.Podemos sentir orgulho por termos sido contemporâneos deste homem, Jean-Paul Sartre, comovente, engraçado, fraterno. Ele tinha 60 anos quando eu o conheci; ele estava coberto de glória a um ponto que nenhum escritor francês havia conhecido antes dele; ele irradiava de dinamismo, ele exaltava em cada um todas as recusas, todas as esperanças, todos os projetos.Ele ignorava completamente que era Sartre, aquele Outro que os jurados do Nobel quiseram petrificar numa estátua dele mesmo, ou seja, o que para ele era a pior ojeriza. Ele amava a vida, não mentia a si mesmo, não dizia a verdade, na intimidade, àquelas que não queriam aceitá-la; ele não se lamentava com isso, não se roia de culpa.Ele seguia em frente; eu sempre o conheci assim, mesmo diminuído, sem se preocupar com aquilo que ele deixava para a posteridade, libertado daquilo que é um entrave para tantos homens: o interesse. "Fiel ao belo mandato de ser infiel a tudo", livre ele foi, livre ele permanece, exposto às ventanias da história, ao sopro espesso e fervente do mundo. Um grande vivo que não morreu, uma vez que ele se transformou no que ele era, um apelo à liberdade. Nunca nós estivemos mais livres do que estando ocupados com as idéias de Sartre.Datas
· 1905: Sartre nasce em Paris, em 21 de junho.
· 1929: obtém o primeiro lugar na agregação de filosofia. Simone de Beauvoir fica em segundo.
· 1933-1934: em Berlim, ele lê Husserl e Heidegger.
· 1934-1936: professor de filosofia no Havre.
· 1937: professor no liceu Pasteur, em Neuilly (região parisiense).
· 1939: "A guerra cortou a minha vida em dois".
· 1941: liberado da prisão.
· 1951: "Le Diable et le Bon Dieu"
· 1952: declara-se companheiro de estrada do Partido comunista.
· 1959: "Les Séquestrés d'Altona", contra a tortura.
· 1964: "As Palavras". Ele recusa o prêmio Nobel de literatura.
· 1971: "O Idiota da família"
· 1980: morre em 15 de abril, em Paris. Ele é enterrado por uma multidão de 50 mil pessoas. Uma bibliografia subjetiva
· "A Náusea", Gallimard, 1938: O seu maior êxito literário. Até hoje, um livro marcante.
· "Esboço de uma teoria das emoções", Hermann, 1938. A melhor introdução ao pensamento de Sartre. Nós "ficamos bravos", o que quer dizer que nós escolhemos esta emoção para responder (equivocadamente) a uma situação.
· "O Ser e o Nada", Gallimard, 1943. Muito menos difícil de ler do que dizem e bem mais importante do que dizem os professores da universidade. A filosofia em estado puro na vida cotidiana.
· "Situação I", Gallimard, 1947. As suas críticas literárias. Faulkner, Dos Passos, Mauriac.
· "O Diabo e o Bom Deus", Gallimard, 1951. A sua maior obra dramática. O rival ateu de Paul Claudel.
· "Saint Genet, Comédien et Martyr", Gallimard, 1952. O grande prefácio (500 págs.) para as Obras completas de Jean Genet. Uma obra-prima herética de todos os pontos de vista.
· "As Palavras", Gallimard, 1964. A sua obra-prima, para os que não gostam muito de Sartre.
· "O Idiota da Família", Gallimard, 1971 e 1973. O Sartre que irrita todo mundo, até mesmo os seguidores de Sartre, e, contudo, a mais decididamente genial das suas obras.
· "Diários de uma Estranha Guerra", Gallimard, 1995. Sem preocupação nem obrigação, uma escrita em total liberdade e que se interessa por tudo. O mais importante dos livros póstumos.

SARTRE: INDICAZIONI PER LA LETTURA

Jean-Paul Sartre, filósofo, escritor e homem livre, exposto às ventanias da história

'Autor, que completaria 100 anos em junho de 2005, imaginara um grande projeto: "ser ao mesmo tempo Spinoza e Stendhal". Durante toda a vida, de "A Náusea" (1938) até "O Idiota da Família" (1971), ele se dedicou à mais precisa e radical concepção de existência';
Autor, que completaria 100 anos em junho de 2005, imaginara um grande projeto: "ser ao mesmo tempo Spinoza e Stendhal". Durante toda a vida, de "A Náusea" (1938) até "O Idiota da Família" (1971), ele se dedicou à mais precisa e radical concepção de existênciaMichel ContatEm ParisNa juventude, os seus amigos chamavam-no de "o pequeno homem", talvez porque soubessem que ele estava predestinado à grandeza. Ele próprio não duvidava disso, a partir do momento que esse destino só dependesse dele. Raymond Aron (1905-1983, sociólogo, politólogo, historiador e adversário de Sartre no plano das idéias) conta nas suas memórias que ele admirava a segurança de si do seu jovem camarada. Kant, Hegel? E por que não? Aron contou também que os estudantes da École Normale Supérieure (famoso estabelecimento do ensino superior francês, fundado em 1794), também conhecidos como os "normalianos", daquela geração perguntavam-se quem de Sartre ou de Nizan (Paul Nizan, 1905-1940), os "inseparáveis", se tornaria célebre o primeiro e quem o seria para sempre. Ele mesmo achava que Sartre criaria mais no campo da filosofia e Nizan no da literatura. Sartre conta que ele se considerava como um futuro grande homem, que ele vivia a sua juventude como a do "jovem Sartre", a qual seria detalhada mais tarde pelas biografias. Melhor ainda, ele havia imaginado o seguinte grande projeto: "ser ao mesmo tempo Spinoza e Stendhal" (um filósofo e um autor literário).Quando Simone de Beauvoir (1908-1986, romancista, autora de ensaios e companheira de Sartre) o encontrou pela primeira vez, na primavera de 1929, ela ficou impressionada com esta bela convicção, com o inesgotável jorro de idéias e de teorias que ele produzia, e também, quando ele a fez ler os seus primeiros ensaios, pela sua inabilidade. Uma aventura metafísica acontecera com Sartre: ele havia nascido. Este acidente ocorre com todo mundo, mas, com ele, o nascimento adquiriu uma dimensão verdadeiramente ontológica: ele era pura contingência. Em outras palavras, ele poderia muito bem, achava ele, não ter acontecido. Mais tarde, quando ele interpretou as condições particulares da sua infância, em "As Palavras", ele escreveu: "A minha sorte foi ter pertencido a um morto: um morto havia derramado as poucas gotas de esperma que se transformam ordinariamente numa criança" e ele comemorou tal fato: sendo órfão de pai, era a aquele "morto muito cedo" que ele devia por não ter sido "corroído pelo cancro do poder" e de não ter de conviver com um "super ego".Portanto, ele era mais um, um ser a mais, um excesso, e este caráter extranumerário acabaria lhe dando a intuição de que aquilo era o próprio do homem. Resumindo, ele era desde o nascimento o filósofo da liberdade porque ele havia vivenciado desde a prima infância a nossa condição de seres sem destino outro que os que nós podemos nos dar a nós mesmos. Isso garante a qualquer um, certa dianteira na vida.Ainda assim, é preciso encontrar a forma que conferirá a esta descoberta um valor de verdade universal. Sartre precisou de tempo até alcançar este objetivo. Raymond Aron, contando com as armas do idealismo kantiano, havia demolido uma depois da outra as suas teorias, sem convencê-lo. Ele seguia cavando o seu sulco, obstinadamente, seguro de ter razão uma vez que ele vivia o que ele pensava, enquanto Aron, um jovem elegante, ia jogar nas quadras de tênis. Enquanto o seu camarada Nizan, imbuído do seu engajamento ao lado dos "amaldiçoados da terra" inscritos no PCF (Partido Comunista Francês), dava nos seus romances virulentos o sinal do ataque contra a classe inimiga do gênero humano, a burguesia, Sartre, atrapalhado por um neoclassicismo herdado de Paul Valéry (escritor, 1871-1945), propunha mitos sobre a Lenda da verdade, tentando reconstituir a sua história. Então, seguindo o conselho do "bom Castor", apelido que ele dera à sua companheira, ele se decidiu a dar a forma de um romance à experiência constitutiva de sua pessoa. Modestamente, ele chamou esta empreitada de seu "factum sobre a Contingência" --"factum" sendo um termo pejorativo que significa "escrito polêmico".O "Castor" torceu o nariz quando ela leu uma primeira versão desta obra, escrita no Havre (noroeste da França), onde ele ensinava filosofia: aquilo cheirava demais o professor. Será que ele não podia incluir neste livro um pouco do suspense do qual eles gostavam no cinema e nos romances americanos?Em Berlim, onde ele estivera com o intuito de aprofundar os seus conhecimentos sobre os filósofos alemães Husserl (Edmund Husserl, 1859-1938) e Heidegger (Martin Heidegger, 1889-1976), lendo-os nos seus escritos originais, em 1933-1934, enquanto um certo Adolf Hitler consolidava o seu poder, ele reformulou o factum de cabo a rabo.Mas isso não foi suficiente para que Simone de Beauvoir, que ele descreveria mais tarde como uma das "testemunhas mais severas, que não deixavam passar nada do que ele escrevia", se mostrasse convencida. Ele retomou, portanto, o seu trabalho de aperfeiçoamento do manuscrito, aplainou, poliu, concatenou.No entanto, o manuscrito melhorado, intitulado "Melancholia", não teve a honra de agradar os leitores selecionadores de obras da editora Gallimard. Com isso, Sartre se sentiu negado no seu próprio ser, e, uma vez que uma jovem pessoa bonita que ele cobiçava também o rejeitara, ele mergulhou na depressão, pensou estar sendo perseguido por lagostas e caranguejos, achou estar acometido de uma psicose alucinatória crônica, para a grande irritação da sua companheira, que estimava que ele havia se instalado de maneira complacente na loucura. Ele parou, portanto, de ser louco, e pediu ao seu amigo Charles Dullin para intervir junto ao seu amigo Gaston Gallimard; este aceitou o estranho romance, propôs intitulá-lo "A Náusea", e Sartre consentiu de bom grado a aliviá-lo um pouco dos seus aspectos populistas e obscenos. Todos sabem o que aconteceu então.Sucesso junto à crítica, prêmio Goncourt perdido por pouco, publicação de novelas e de artigos retumbantes na NRF ("Nova Revista Francesa", uma publicação literária editada desde 1907 por Gallimard), dos quais um sobre François Mauriac (1885-1970), que mergulhou este romancista católico num silêncio perplexo.Qual foi a contribuição de Sartre para o mundo literário antes da guerra e, dentre as suas idéias, quais são as que explodirão verdadeiramente depois dela?Uma visão radical da condição humana. Não política, e sim ontológica: o ser humano está entregue à angústia tão logo ele considera a sua existência na sua verdade. Ele é o que ele não é, e não é o que ele é, e esta distância em relação a si mesmo, esta impossibilidade de coincidir consigo mesmo nada mais é que a liberdade da consciência.Husserl chamou esta projeção da consciência em direção às coisas de "intencionalidade". O homem está todo ele voltado para fora, dentro do mundo, exposto à grande ventania do real. Não existe nenhuma interioridade, uma vez que aquilo que nós chamamos de vida interior é uma mistificação, uma vã complacência para com os mitos da pessoa única e delicada. A fenomenologia nos liberta de Proust (Marcel Proust, escritor, 1871-1922) e da psicologia. A imaginação é aquela faculdade de "reduzir ao nada" que é própria à consciência e que lhe confere a liberdade. Esta última em nada constitui um presente, uma vez que, ao contrário, ela envolve a responsabilidade, tanto mais que é impossível fugir dela, exceto mentindo a si mesmo e aos outros por meio da má-fé. Mas ela também permite a grandeza na qual consiste uma vida assumida como liberdade, contra todos os determinismos, inclusive o do subconsciente.Esses temas do existencialismo sartriano ou do existencialismo ateu (por oposição ao existencialismo cristão que encontra a sua fonte no teólogo dinamarquês Kierkegaard, 1813-1855) e que serão formalizados e conceituados em "O Ser e o Nada" (1943), já estão elaborados nos escritos que Sartre publica no decorrer dos anos 1930. A guerra vai lhe servir para aprofundá-los e desenvolvê-los.A guerra é a grande chance da sua vida, podemos dizer, correndo o risco de perpetrar um paradoxo escandaloso. Na Liberação, Sartre começará o seu artigo sobre "A República do Silêncio" com a seguinte frase, que se tornou célebre: "Nunca fomos mais livres do que durante a Ocupação alemã".Livres porque expostos, em meio a uma situação-limite, à verdade da condição humana, e porque confrontados às escolhas as mais extremas. Não faltaram aqueles que lamentaram, sobretudo, desde que ele morreu, que Sartre não tivesse sido fuzilado ou, ao menos, torturado, criticando-o por ter resistido escrevendo, em vez de fazê-lo com armas de verdade. Criticam-no por não ter sido nem Jean Cavaillès, nem René Char (autores que integraram a Resistência contra os nazistas), ou seja, por ter sido Sartre. Por ter escrito "As Moscas" (1943), "Huis Clos" (1944), "O Ser e o Nada" (1943), em vez de ter matado alemães ou detonado ferrovias. Que ele tenha criticado a si mesmo por isso, depois, é compreensível; que outros, e, sobretudo, os que o leram, o tivessem criticado por ter escrito, isso é simplesmente uma farsa. A resistência de Sartre, como escritor e filósofo, é impoluta.As críticas, para os que fazem questão de fazê-las ao seu respeito, se referem à maneira com a qual ele justificou as suas escolhas políticas depois da guerra e ao longo dos anos 50 e 60, e aos argumentos que ele utilizou para tanto.Podemos hoje preferir os objetivos do Movimento Democrático Revolucionário do qual ele participa em 1948-1949 (conferir um conteúdo concreto aos direitos abstratos da democracia por meio da criação de uma Europa socialista e revolucionária). Também podemos condenar sua posição de companheiro de estrada do Partido Comunista de 1952 a 1956 ( ele defendeu o partido porque representa os interesses da classe operária e que ele vem sendo reprimido, defender o bloco soviético em meio à guerra fria por ele estar menos armado do que o bloco atlântico, e por ele ter, portanto, um número maior de razões de querer a paz).Mas essas posições nada mais são do que política e o que importa, para nós, encontra-se em outro lugar."Os Caminhos da Liberdade", esta maneira de submeter a própria liberdade a uma prova por meio da experimentação literária, dentro da linhagem do romance americano e do seu realismo subjetivo. "Saint Genet, Comédien e Martyr" (1952), esta prodigiosa psicanálise existencial de um escritor por um outro escritor. "As Mãos Sujas" (1948), "Le Diable et le Bon Dieu" ("O Diabo e o Bom Deus", 1951), "Les Séquestrés d'Altona" ("Os Seqüestrados de Altona", peça em cinco atos, 1960), com todas as suas indagações apaixonadas sobre o que nós fazemos quando nos tornamos reféns da história. "A Crítica da Razão Dialética" (1960) é um esforço gigantesco para compreender de que maneira a liberdade se transforma em finalidade negativa tão logo que o ato se inscreve dentro do mundo material, e como o grupo se petrifica por meio do juramento de se manter vivo uma vez que as condições do seu surgimento se tornaram obsoletas."As Palavras" ("Les Mots", 1964, análise de sua própria infância, um livro que lhe valeu o prêmio Nobel de literatura, que ele recusou), com esta maneira irônica de se despedir de si mesmo, desmistifica aquilo que o constituiu."O Idiota da Família" (1972) é uma empreitada de antropologia totalizadora na qual o indivíduo Flaubert, com o seu projeto de transportar o mundo inteiro dentro do imaginário, se torna o tema de uma saga da escrita que se desenvolve dentro de um mundo histórico tornado inteligível.Todas essas obras conferem uma visão sobre o homem, na qual os mistérios se dissipam sob os fogos da inteligência mais ágil e vigorosa que o século 20 conheceu.Podemos sentir orgulho por termos sido contemporâneos deste homem, Jean-Paul Sartre, comovente, engraçado, fraterno. Ele tinha 60 anos quando eu o conheci; ele estava coberto de glória a um ponto que nenhum escritor francês havia conhecido antes dele; ele irradiava de dinamismo, ele exaltava em cada um todas as recusas, todas as esperanças, todos os projetos.Ele ignorava completamente que era Sartre, aquele Outro que os jurados do Nobel quiseram petrificar numa estátua dele mesmo, ou seja, o que para ele era a pior ojeriza. Ele amava a vida, não mentia a si mesmo, não dizia a verdade, na intimidade, àquelas que não queriam aceitá-la; ele não se lamentava com isso, não se roia de culpa.Ele seguia em frente; eu sempre o conheci assim, mesmo diminuído, sem se preocupar com aquilo que ele deixava para a posteridade, libertado daquilo que é um entrave para tantos homens: o interesse. "Fiel ao belo mandato de ser infiel a tudo", livre ele foi, livre ele permanece, exposto às ventanias da história, ao sopro espesso e fervente do mundo. Um grande vivo que não morreu, uma vez que ele se transformou no que ele era, um apelo à liberdade. Nunca nós estivemos mais livres do que estando ocupados com as idéias de Sartre.
Datas
· 1905: Sartre nasce em Paris, em 21 de junho.
· 1929: obtém o primeiro lugar na agregação de filosofia. Simone de Beauvoir fica em segundo.
· 1933-1934: em Berlim, ele lê Husserl e Heidegger.
· 1934-1936: professor de filosofia no Havre.
· 1937: professor no liceu Pasteur, em Neuilly (região parisiense).
· 1939: "A guerra cortou a minha vida em dois".
· 1941: liberado da prisão.
· 1951: "Le Diable et le Bon Dieu"
· 1952: declara-se companheiro de estrada do Partido comunista.
· 1959: "Les Séquestrés d'Altona", contra a tortura.
· 1964: "As Palavras". Ele recusa o prêmio Nobel de literatura.
· 1971: "O Idiota da família"
· 1980: morre em 15 de abril, em Paris. Ele é enterrado por uma multidão de 50 mil pessoas. Uma bibliografia subjetiva
· "A Náusea", Gallimard, 1938: O seu maior êxito literário. Até hoje, um livro marcante.
· "Esboço de uma teoria das emoções", Hermann, 1938. A melhor introdução ao pensamento de Sartre. Nós "ficamos bravos", o que quer dizer que nós escolhemos esta emoção para responder (equivocadamente) a uma situação.
· "O Ser e o Nada", Gallimard, 1943. Muito menos difícil de ler do que dizem e bem mais importante do que dizem os professores da universidade. A filosofia em estado puro na vida cotidiana.
· "Situação I", Gallimard, 1947. As suas críticas literárias. Faulkner, Dos Passos, Mauriac.
· "O Diabo e o Bom Deus", Gallimard, 1951. A sua maior obra dramática. O rival ateu de Paul Claudel.
· "Saint Genet, Comédien et Martyr", Gallimard, 1952. O grande prefácio (500 págs.) para as Obras completas de Jean Genet. Uma obra-prima herética de todos os pontos de vista.
· "As Palavras", Gallimard, 1964. A sua obra-prima, para os que não gostam muito de Sartre.
· "O Idiota da Família", Gallimard, 1971 e 1973. O Sartre que irrita todo mundo, até mesmo os seguidores de Sartre, e, contudo, a mais decididamente genial das suas obras.
· "Diários de uma Estranha Guerra", Gallimard, 1995. Sem preocupação nem obrigação, uma escrita em total liberdade e que se interessa por tudo. O mais importante dos livros póstumos.

Paisagem da janela lateral. Siena.

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3/26/2005

Cada um tem a estorinha que merece!

C'era una volta, una giovane donna bella e dolcissima venuta da molto lontano....Una donna soave, dolce dagli occhi di giada ,dal sorriso splendido come una rosa, con i capelli portati dal vento come spighe di grano, bella come una venere di Milo.Tutti la cercavano, e la volevano per loro.

Cammina, cammina la bella giovane venuta da lontano arrivo' nel vecchio continente e da qui in Italia. Lei donna meravigliosa fu subito notata da tutto il mondo. circostante. Tutti promettevano, volevano, cercavano....lei !!Ma un giorno arrivo' un bel principe che vistala, subito si innamoro' di lei.
Egli la prese sul suo cavallo bianco e la porto' in giro per l'Italia mostrandogli le cose piu' belle del suo regno.....Gli parlo' d'amore dicendogli:
-HAI SPIANATO CON I TUOI OCCHI IL MIO CUORE DI ZOLLA DURA. COME LA PIOGGIA NELLA PRIMAVERA E' CRESCIUTA L'ERBE, AMORE MIO. FERTILE E' IL MIO TERRENO D'AMORE E DI SOGNI SONO QUESTI VERSI MATURATI AL SOLE. VIENI, AMORE MIO VIENI,CORRIAMO INSIEME TRA ONDE DI SPIGHE DORATE.
La bella giovane s'innamoro' di lui e fecero un lungo viaggio.Tornarono nella terra di lei e vissero come Adamo ed Eva nel paradiso terrestre, assaporarono le gioie della vita...e decisero cosi'.....di vivere insieme per sempre felici e contenti !!

IL PRINCIPE AZZURRO

3/14/2005

Aniversario do Rubem Alves

Nasci no dia 15 de setembro de 1933. Sobre o meu nascimento veja a crônica Que bom que eles se casaram. Faça as contas para saber quantos anos não tenho. Que "não tenho", sim; porque o número que você vai encontrar se refere aos anos que não tenho mais, para sempre perdidos no passado. Os que ainda tenho, não sei, ninguém sabe. Nasci no sul de Minas, em Boa Esperança que, naquele tempo, se chamava Dores da Boa Esperança. Depois tiraram o "Dores". Pena, porque dores de boa esperança são dores de parto: há dores que anunciam o futuro. Boa Esperança é conhecida mais pela serra que o Lamartine Babo, ferido por um amor impossível, transformou em canção: "Serra da Boa Esperança", que você ouviu logo que entrou na minha casa.
Meu pai era rico, quebrou, ficou pobre. Tivemos de nos mudar. Dos tempos de pobreza só tenho memórias de felicidade. Albert Camus dizia que, para ele, a pobreza (não a miserabilidade) era o ideal de vida. Pobre, foi feliz. Conheceu a infelicidade quando entrou para o Liceu e começou a fazer comparações. A comparação é o início da inveja que faz tudo apodrecer. Aconteceu o mesmo comigo. Conheci o sofrimento quando melhoramos de vida e nos mudamos para o Rio de Janeiro. Meu pai, com boas intenções, me matriculou num dos colégios mais famosos do Rio. Foi então que me descobri caipira. Meus colegas cariocas não perdoaram meu sotaque mineiro e me fizeram motivo de chacota. Grande solidão, sem amigos. Encontrei acolhimento na religião. Religião é um bom refúgio para os marginalizados. Admirei Albert Schweitzer, teólogo protestante, organista, médico, prêmio Nobel da Paz. Quis seguir o seu caminho.
Tentei ser pianista. Fracassei. Sobrava-me disciplina e vontade. Faltava-me talento. Há um salmo que diz: "Inútil te será levantar de madrugada e trabalhar o dia todo porque Deus, àqueles a quem ama, ele dá enquanto estão dormindo." Deus não me deu talento. Deu todo para o Nelson Freire, que também nasceu em Boa Esperança. Estudei teologia. Fui pastor no interior de Minas. Convivi com gente simples e pobre. Lá um pastor é uma espécie de "despachante" para resolver todos os problemas. Mas já naquele tempo minhas idéias eram diferentes. Eu achava que religião não era para garantir o céu, depois da morte, mas para tornar esse mundo melhor, enquanto estamos vivos. Claro que minhas idéias foram recebidas com desconfiança... Em 1959 me casei e vieram os filhos Sérgio (XII.59) e Marcos (VII.62). Em 1975 nasceu minha filha Raquel. Inventando estórias para ela descobri que eu podia escrever estórias para crianças (A lista dos livros infantis que escrevi estão na Biblioteca). Fui estudar em New York (1963), voltei um mês depois do golpe militar. Fui denunciado pelas autoridades da Igreja Presbiteriana, à qual pertencia, como subversivo. Experimentei o medo e fiquei conhecendo melhor o espírito dos ministros de Deus... Minha família e eu tivemos de sair do Brasil. Fui estudar em Princeton, USA, onde escrevi minha tese de doutoramento, Towards a Theology of Liberation, publicada em 1969 pela editora católica Corpus Books com o título A Theology of Human Hope. Era um dos primeiros brotos daquilo que posteriormente recebeu o nome de Teologia da Libertação. Se você quiser saber um pouco sobre o que aconteceu comigo nesses anos, leia o ensaio Sobre deuses e caquis (O quarto do mistério, p 137). O tempo passou, mudou meu jeito de pensar, voltei ao Brasil em 1968, demiti-me da Igreja Presbiteriana. Com um Ph.D. debaixo do braço e sem emprego. Foi o economista Paulo Singer, que fiquei conhecendo numa venda de móveis usados em Princeton, que me abriu a porta do ensino superior, indicando-me para uma vaga para professor de filosofia na FAFI de Rio Claro, SP. Em 1974 transferi-me para a UNICAMP, onde fiquei até me aposentar.
Golpes duros na vida me fizeram descobrir a literatura e a poesia. Ciência dá saberes à cabeça e poderes para o corpo. Literatura e poesia dão pão para corpo e alegria para a alma. Ciência é fogo e panela: coisas indispensáveis na cozinha. Mas poesia é o frango com quiabo, deleite para quem gosta... Quando jovem, Albert Camus disse que sonhava com um dia em que escreveria simplesmente o que lhe desse na cabeça. Estou tentando me aperfeiçoar nessa arte, embora ainda me sinta amarrado por antigas mortalhas acadêmicas. Sinto-me como Nietzsche, que dizia haver abandonado todas as ilusões de verdade. Ele nada mais era que um palhaço e um poeta. O primeiro nos salva pelo riso. O segundo pela beleza.
Com a literatura e a poesia comecei a realizar meu sonho fracassado de ser músico: comecei a fazer música com palavras. Leituras de prazer especial: Nietzsche, T. S. Eliot, Kierkegaard, Camus, Lutero, Agostinho, Angelus Silésius, Guimarães Rosa, Saramago, Tao Te Ching, o livro de Eclesiastes, Bachelard, Octávio Paz, Borges, Barthes, Michael Ende, Fernando Pessoa, Adélia Prado, Manoel de Barros. Pintura: Bosch, Brueghel, Grünnenwald, Monet, Dali, Larsson. Música: canto gregoriano, Bach, Beethoven, Brahms, Chopin, César Franck, Keith Jarret, Milton, Chico, Tom Jobim.
Sou psicanalista, embora heterodoxo. Minha heterodoxia está no fato de que acredito que no mais profundo do inconsciente mora a beleza. Com o que concordam Sócrates, Nietzsche e Fernando Pessoa. Exerço a arte com prazer. Minhas conversas com meus pacientes são a maior fonte de inspiração que tenho para minhas crônicas.
Já tive medo de morrer. Não tenho mais. Tenho tristeza. A vida é muito boa. Mas a Morte é minha companheira. Sempre conversamos e aprendo com ela. Quem não se torna sábio ouvindo o que a Morte tem a dizer está condenado a ser tolo a vida inteira.

No dia da foto eu estava contente demais. Foi aqui na Provincia de Torino, numa cidade chamada Nichelino (feinha de doer) em março de 2005.

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3/13/2005

O inverno está acabando. Esta foto é só para lembrar do inverno rigoroso. Esta foto foi feita em Sestrière, nos Alpes do lado italiano.

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3/11/2005

Outros peixes azuis do aquario de Genova.

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Peixes azuis do aquario de Genova.

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3/05/2005

Parece que este é o primeiro dia neste blog..

Apresento-me: sou brasileira. Tenho vivido na Italia. Meio assim - corpo na Italia e pensamento no Brasil. Mas quando estou no Brasil sou corpo là, alma aqui. Entao, esta' tudo certo.

Resolvi trilhar um caminho meio doido. Resolvi me desapegar de tudo. So' que me esqueci que nao estava morta, ainda, e nao fiz um plano de saude!!!